quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Razões para ir a um Nutrólogo em 2022

 Dias atrás li uma mensagem no instagram de um amigo (Dr. Haroldo Falcão) que dizia o seguinte: "Não espere a próxima pandemia para começar a investir em sua saúde". 

Nos últimos 2 anos, acredito (pelo menos no consultório) que nunca se buscou tanto por estratégias para melhorar a saúde, "fortalecer e blindar' o sistema imunológico, otimizar a performance na prática de exercícios.

Resumindo: a procura por um médico Nutrólogo aumentou muito, não só no consultório mas também no ambulatório que coordeno no SUS. Isso indica que cresce o numero de pessoas que estão mais preocupadas com prevenção, tratamento de doenças nutricionais e conhecendo melhor a atuação do médico Nutrólogo. 

Entretanto, para muitos (leigos e até mesmo profissionais da saúde), a função do Nutrólogo ainda não está tão bem esclarecida. Para piorar, acreditam erroneamente:
1) Que o tratamento Nutrológico é algo caro e elitizado;
2) Que o médico Nutrólogo prescreve anabolizantes, implantes (chips), hormônios para fins estéticos (algo expressamente proibido pelo Conselho Federal de Medicina).
3) Que médico apenas com pós-graduação em Nutrologia já é Nutrólogo. No Brasil ao todo somos apenas 1.236 Nutrólogos, ou seja, a grande maioria dos que se intitulam Nutrólogos, na verdade não o são.
4) Que a prescrição de soros endovenosos é rotina na Nutrologia quando se trata de pacientes saudáveis. Raramente se opta por essa via quando o trato digestivo está funcionante.
5) Que o médico Nutrólogo é aquele que solicita uma infinidade de exames, principalmente dosagem de nutrientes: sem critério algum e que gera sobrecarrega dos planos de saúde.
6) Que o Nutrólogo prescreve fórmulas kilométricas, receitas médicas de 3 páginas, inúmeros manipulados.

Há Nutrólogos titulados que fazem isso? Sim. Mas há também Nutrólogos que condenam essas práticas. Nós do movimento Nutrologia Brasil (@nutrologiabrasil) abominamos. 

Então, antes de consultar com um médico que se diz NUTRÓLOGO verifique se ele realmente é um Nutrólogo. É simples, basta uma consulta nesse site: https://portal.cfm.org.br/busca-medicos/

Digite o nome do médico lá. Caso ele seja especialista em Nutrologia estará descrito o número do registro de qualificação de especialista  (RQE) em Nutrologia.

Mas afinal, porque procurar um Nutrólogo em 2022 ? Os principais motivos para procurar um Nutrólogo em 2022 são: 
1) Se busca melhorar a sua saúde como um todo,
2) Se deseja ter uma alimentação mais equilibrada e fazer melhores escolhas alimentares,
3) Se anseia adotar hábitos mais saudáveis de vida,
4) Se quer ter mais disposição para realizar as atividades do cotidiano.

50 doenças e situações nas quais  presença e o acompanhamento com um Nutrólogo pode ser útil:
1) Pacientes críticos e internados em UTI, necessitando de suporte nutricional para melhorar o prognóstico e evitar complicações (ex. sarcopenia) após a alta.
2) Pacientes restritos ao leito hospitalar (internados) e que necessitam de suporte nutricional adequado (enteral ou parenteral).
3) Pacientes que foram/serão submetidos a cirurgias, principalmente as do aparelho digestivo.
4) Pacientes saudáveis que desejam verificar os níveis de nutrientes: vitaminas, minerais. Colesterol, triglicérides, ácido úrico, glicemia.
5) Pacientes que não conseguem ingerir comida por via oral (pela boca) e necessitam de sonda nasogástrica/nasoenteral ou por via endovenosa (na veia). Gastrostomia ou jejunostomia.
6) Pacientes com Baixa massa magra (sarcopenia) ou com baixo peso (desnutrição).
7) Portadores de Sobrepeso ou Obesidade.
8) Síndrome metabólica.
9) Esteatose hepática (gordura no fígado).
10) Pré-diabetes, Diabetes mellitus tipo 1 e tipo 2.
11) Dislipidemias: aumento do colesterol e/ou dos triglicérides.
12) Acompanhamento Pré e pós-cirurgia bariátrica.
13) Transtornos alimentares, em acompanhamento conjunto com psiquiatras e psicólogos: Compulsão alimentar, Bulimia, Anorexia, Vigorexia, Ortorexia.
14) Alergias alimentares.
15) Intolerâncias alimentares (lactose, frutose, rafinose e sacarose). Intolerância FODMAPS e sensibilidade não-celíaca ao glúten.
16) Anemias carenciais (por falta de ferro, vitamina B12, ácido fólico, zinco, cobre, vitamina A).
17) Pacientes que optam pelo Vegetarianismo, veganismo, Piscitarianismo (consumo de Peixes), Reducitarianismo (redução do consumo de carne).
18) Pacientes com constipação intestinal (intestino preso).
19) Pacientes com quadros diarréicos crônicos (diarreias).
20) Pacientes com Disbiose intestinal, Síndrome de Supercrescimento bacteriano do intestino delgado (SIBO), Síndrome de supercrescimento fúngico (SIFO).
21) Portadores de Síndrome do intestino irritável, gases intestinais, distensão abdominal,  empachamento e digestão lentificada.
22) Pacientes com Doenças inflamatórias intestinais: Doença de Crohn e Retocolite ulcerativa.
23) Pacientes com Doença diverticular do cólon (divertículo e diverticulite).
24) Gastrite.
25) Doença do refluxo gastroesofágico.
26) Esofagite eosinofílica.
27) Acompanhamento nutrológico pré-gestacional, gestacional e durante a amamentação.
28) Casais com infertilidade (aspectos nutrológicos).
29) Pacientes portadores de doenças cardiológicas em acompanhamento com cardiologista: Hipertensão arterial, insuficiência cardíaca, doença arterial coronariana, arritmia cardíaca, valvulopatias.
30) Pacientes portadores de doenças pulmonares em acompanhamento com pneumologista: enfisema pulmonar, bronquite crônica, asma, fibrose cística.
31) Pacientes portadores de doenças renais em acompanhamento com nefrologista: insuficiência renal crônica, litíase renal (cálculos renais), cistite intersticial, hiperuricemia (aumento do ácido úrico), gota.
32)  Pacientes portadores de doenças no fígado/vias biliares em acompanhamento com hepatologista: insuficiência hepática, hepatites virais ou autoimunes, Síndrome de Gilbert, Litíase biliar (pedra na vesícula).
33) Portadores de Osteoporose ou osteopenia.
34) Pacientes portadores de doenças autoimunes e que estão em acompanhamento com especialista na área, tais como aartrite reumatóide, lúpus eritematoso sistêmico, doença de hashimoto, psoríase, vitiligo, doença celíaca, espondilite anquilosante.
35) Portadores de doenças neurogenerativas e que estão em acompanhamento com neurologista: esclerose múltipla, esclerose lateral amiotrófica, atrofia muscular espinhal (AME), doença de Alzheimer (DA) e outras demências, doença de Parkinson, doenças do neurónio motor (DNM), doença de Huntington (DH).
36) Pacientes portadores de cefaléias e enxaquecas, que já estão em acompanhamento com Neurologista.
37) Pacientes portadores de epilepsia, com crises convulsivas refratárias e que por indicação do neurologista pode-se utilizar dieta cetogênica.
38) Pacientes portadores do vírus HIV e que estão em tratamento com terapia antiretroviral sob supervisão de infectologista.
39) Pacientes portadores de câncer em acompanhamento com oncologista.
40) Pacientes portadores de transtornos psiquiátricos e que estão em acompanhamento com psiquiatra e psicoterápico: Transtorno de ansiedade generalizada, Síndrome do pânico, Depressão, Transtorno bipolar, Transtorno do déficit de atenção, Esquizofrenia.
41) Portadores de distúrbios do sono: insônia, apnéia obstrutiva do sono, sonolência diurna, sensação de sono não reparador, que estão em acompanhamento com Médico do sono.
42) Pacientes que apresentam fadiga, cansaço crônico, fraqueza, indisposição. Já que muitas vezes o sintoma pode ser decorrente da privação de algum nutriente, presença de metal tóxico ou de hábitos dietético-higiênicos errados.
43) Pacientes com falta de macronutrientes (carboidratos, proteína e gorduras) ou de micronutrientes (vitaminas, minerais).
44) Pacientes que desejam melhorar a performance na prática desportiva, atletas profissionais ou amadores. Acompanhamento conjunto com o médico do esporte.
45) Pacientes que desejam ganhar massa magra sem utilização de anabolizantes.
46) Pacientes com alterações dermatológicas, as quais pode existir um componentes nutricional: Acne, rosácea, queda de cabelo, unhas quebradiças.
47) Portadores de candidíase de repetição.
48) Mulheres com Tensão pré-menstrual e que já estão em acompanhamento com ginecologista.
49) Pacientes portadores de zumbido e vertigem, que o Otorrinolaringologista ou Neurologista indica adequação dietética.
50) Pacientes com fibromialgia.

Atenção, a lista acima enumera situações e doenças que o Nutrólogo pode auxiliar. Não quer dizer que eu ou meus colegas atendemos tudo isso. 
É importante salientar que o Nutrólogo geralmente trabalha em parceria com Nutricionistas. 

Abaixo alguns textos que podem esclarecer mais sobre a Nutrologia:

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

(Conteúdo para Médicos e Nutricionistas) -Funções da vitamina B12 - Por Prof. Valentim Magalhães

A vitamina B12 desempenha suas funções através de suas duas formas de enzimas ativas: metilcobalamina e adenosilcobalamina. Vamos entender melhor essas reações bioquímicas e como elas se refletem em sinais clínicos.

Metilcobalamina: participa da metabolização da homocisteína em metionina, que será convertida na SAM. Portanto, a deficiência de B12 leva ao acúmulo de homocisteína (neurotóxica) e deficiência de SAM. Como a SAM é um doador de metil para reações do corpo, a deficiência de B12 leva à alteração da expressão genética por impactar as metilações do DNA. A SAM também influencia na síntese de serotonina, noradrenalina e dopamina, sugerindo que a deficiência de B12 possa também impactar neurotransmissores relevantes para o estado mental.

Essa mesma reação é necessária para conversão 5-MTHF em THF e 5,1O-MTHF, que participa da síntese de DNA. Por isso, a deficiência de B12, assim como de B9, afeta as células da medula óssea que se dividem rápido, levando à produção de células sanguíneas imaturas e aumentadas (resultado da síntese de DNA prejudicada) e subsequente anemia megaloblástica.

Na depleção de B12, o folato permanece preso como 5-MTHF (forma presente no plasma). Nessa situação, as células sofrem de pseudo-deficiência de folato, onde folato sérico pode estar alto, mas não está disponível síntese de DNA.

Adenosilcobalamina: atua como um co-fator para a enzima que converte o metilmalonil CoA em succinil CoA, um metabólito do ciclo de Krebs relacionado ao metabolismo de aminoácidos de cadeia ramificada (BCAA) e ácidos graxos.

A deficiência da B12 leva ao acúmulo de metilmalonil CoA e consequentemente de ácido metilmalônico (MMA). O MMA elevado leva à mielinização anormal, prejudicando o impulso nervoso e função neurológica.

A homocisteína e o MMA elevados são, portanto, marcadores funcionais da deficiência de B12, sendo o segundo mais caro e menos usado na prática clínica. No entanto, a homocisteína pode estar elevada por outros fatores, portanto deve ser correlacionada a avaliação clínica (análise dos fatores de risco e sinais e sintomas) e valores séricos de B12 e B9.

Referências: 
1. Hughes, Catherine F., et al. Vitamin B12 and ageing: current issues and interaction with folate. Annals of clinical biochemistry 50.4 (2013): 315-329.
2. Gröber, Uwe, Klaus Kisters, and Joachim Schmidt. "Neuroenhancement with vitamin B12 underestimated neurological significance." Nutrients 5.12 (2013): 5031-5045.
3. Bottiglieri, Teodoro. Folate, vitamin B₁₂, and S-adenosylmethionine. The Psychiatric Clinics of North America 36.1 (2013): 1-13.
4. Mischoulon, David, and Maurizio Fava. Role of S-adenosyl-L-methionine in the treatment of depression: a review of the evidence. The American journal of clinical nutrition 76.5 (2002): 1158S-1161S.
5. Azzini, Elena, Stefania Ruggeri, and Angela Polito. Homocysteine: its possible emerging role in at-risk population groups. International journal of molecular sciences 21.4 (2020): 1421.
6. Rizzo, Gianluca, et al. Vitamin B12 among vegetarians: status, assessment and supplementation. Nutrients 8.12 (2016): 767.
7. O’Leary, Fiona, and Samir Samman. Vitamin B12 in health and disease. Nutrients 2.3 (2010): 299-316.

Autor: Prof. Valentim Magalhães

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

(Conteúdo para Médicos e Nutricionistas) - Endometriose - Por Prof. Valentim Magalhães

A endometriose, caracterizada pela presença de endométrio fora da cavidade uterina, é uma das doenças ginecológicas mais prevalentes, afetando 6–10% das mulheres em idade reprodutiva. É uma doença caracterizada por dor associada à menstruação e relação sexual, desconforto ao urinar e infertilidade.

A inflamação desempenha papel fundamental na sua fisiopatologia, bem como na dor e na subfertilidade associadas. Mulheres com endometriose apresentam aumento do estresse oxidativo na cavidade peritoneal e no sangue, o que está associado a processos inflamatórios crônicos.

Estudos de associação revelaram que frutas, vegetais, laticínios e ômega-3 estão relacionados ao menor risco de desenvolver endometriose. Os fatores que aumentam o risco incluem o ácidos graxos trans, excesso de gorduras, carne vermelha e embutidos e álcool.

Em um ensaio clínico, 59 mulheres foram aleatoriamente designadas para receber por 8 semanas: 1200 UI de Vit E + 1000 mg de VitC ou placebo. Após a intervenção, a dor crônica melhorou em 43% dos pacientes e houve diminuição significativa nos marcadores inflamatórios do líquido peritoneal no grupo com antioxidantes (p=0,0055) em comparação ao placebo. No mesmo grupo, a dor associada à menstruação e ao sexo diminuíram em 37% e 24% das pacientes, respectivamente.

A retirada de soja, glúten e FODMAP foram associados a melhora da endometriose, mas apenas em relatos de caso (baixa qualidade científica) e em pacientes com endometriose e síndrome do intestino irritável associada. Entende-se que o aumento da inflamação e distensão abdominal em indivíduos com intolerâncias específicas piore os sintomas da endometriose. SOMENTE nesses casos, recomenda-se o manejo da dieta evitando esses alimentos.

A evidência que relaciona dieta e endometriose ainda é limitada, mas todos os nutrientes que se mostraram eficazes tiveram ações antiinflamatórias ou antioxidantes. Portanto, a Sociedade Alemã de Nutrição, bem como outros órgãos, recomenda uma dieta balanceada e anti-inflamatória, rica em antioxidantes, e retirada do álcool. A suplementação de vitaminas antioxidantes pode ser considerada individualmente quando o aporte além da alimentação for necessário.

Referências: 

1. Huijs, Emma, and A. W. Nap. "The effects of nutrients on symptoms in women with endometriosis: a systematic review." Reproductive BioMedicine Online (2020).
2. Caserta, D., et al. "Celiac disease and endometriosis: an insidious and worrisome association hard to diagnose: a case report." Clin Exp Obstet Gynecol 41.3 (2014): 346-348.
3. Chandrareddy, Ashadeep, et al. "Adverse effects of phytoestrogens on reproductive health: a report of three cases." Complementary Therapies in Clinical Practice 14.2 (2008): 132-135.
4. Moore, Judith S., et al. "Endometriosis in patients with irritable bowel syndrome: specific symptomatic and demographic profile, and response to the low FODMAP diet." Australian and New Zealand Journal of Obstetrics and Gynaecology 57.2 (2017): 201-205.
5. Santanam, Nalini, et al. "Antioxidant supplementation reduces endometriosis-related pelvic pain in humans." Translational Research 161.3 (2013): 189-195.
6. Jurkiewicz-Przondziono, Joanna, et al. "Influence of diet on the risk of developing endometriosis." Ginekologia polska 88.2 (2017): 96-102.

Autor: Prof. Valentim Magalhães